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Tempo: dilema e desejo das mulheres contemporâneas

Esta precisando de mais tempo? Saiba que não está sozinha. O tempo está entre os maiores dilemas e desejos das mulheres contemporâneas, como revela o estudo Conte com Elas, realizado pelo movimento Habla. Em números, isto significa que em uma semana (considerando cinco dias úteis e o total de 120 horas), a mulher brasileira dedica cerca de 40 horas para o trabalho profissional, remunerado. Como ela também cuida da casa e da família - sem qualquer remuneração -, estes números aumentam consideravelmente  Caso more sozinha, a mulher dedica quase 18 horas semanais aos cuidados do lar; se mora com um filho, trabalha em média 19 horas em casa, tempo que aumenta para 28 horas se ela vive com um parceiro (!!!) e mais de 30 horas semanais, se tiver marido e filho. Isso sem contar que, além da dupla jornada, ainda há o trânsito, os cuidados com a saúde, os estudos (as mulheres estudam cada vez mais no país) e o sempre preterido lazer. Como chegamos a esse ponto?
A escritora Rosiska Darcy de Oliveira, autora do livro "Reengenharia do tempo", acredita que o ônus do tempo está vinculado ao bônus da independência feminina. "A sociedade não se organizou para a migração das mulheres da vida privada para o mundo do trabalho. Nós não discutimos a questão do uso do tempo. É como se nós disséssemos 'me deixe entrar (no mercado de trabalho) que você nem vai perceber que sou mulher'. E ao mesmo tempo disséssemos em casa: 'eu vou (trabalhar), mas você nem vai perceber que eu saí'", argumenta. Rosiska observa que isto gerou uma situação impossível para as mulheres e fez a necessidade de repensar a organização da sociedade, levando-se em conta que todos trabalham e têm uma vida privada. "No fundo, não é um debate só sobre o tempo - é um debate sobre o sentido da vida. Quando você escolhe, nas 24 horas do seu dia, o que você vai fazer, você está escolhendo o sentido da sua vida”, explica.
Não bastasse, existe ainda a questão contemporânea do tempo digital e do tempo concreto. A tecnologia facilitou tanto a nossa vida que nos dá a ilusão de que tudo é possível na distância de um clique. A pesquisadora Dora Fraggin, sócia-diretora da Vox Pesquisas, estuda esse cenário. “Antes da medida digital, dividíamos o nosso tempo em tarefas com começo, meio e fim. Hoje, o fim de uma tarefa não coincide com o início de outra; empilhamos muitas tarefas em um só momento apoiadas nas facilidades digitais”, diz. “Criou-se uma relação esquizofrênica com o tempo, há a falsa ilusão de um tempo elástico e de que tudo é instantâneo e isso causa angústia. Por acreditar que podemos resolver tudo clicando 'enter' ou 'enviar', valorizamos os resultados e não os caminhos que nos fazem chegar a eles, em uma tentativa subliminar, de cancelar o tempo do processo. Isso obviamente é uma ilusão, e causa angústia", completa Dora.
Segundo ela, ao eliminarmos o processo, damos fim, também, ao conhecimento, viramos "pessoas post-it", com informação em cima de informação, sem memória. "Conhecimento leva tempo, significa conseguir encontrar, em tudo, um fluxo, uma direção, um caminho. Tentar tirar isso pode causar grandes prejuízos. Até porque eu acredito que, no futuro, o poder vai ser totalmente vinculado ao conhecimento, muito mais do que é ao dinheiro hoje”, acredita a pesquisadora. (MdeMulher)

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